Você MereceMelhor
Adoção — história, lei, preconceito e amor como escolha consciente.
O sorvete derrete mais rápido do que Lucy consegue comer. Um fino fio leitoso escorre por seus dedos, pinga na mesa, e ela o acompanha com concentração séria, como se fosse um experimento científico de grande importância. Então ela levanta o olhar e ri e estende a colher pegajosa para Taylor. "Mais", diz ela. Taylor assente, resignado, pega a colher e serve outra vez. Sorvete de morango com calda de baunilha. Uma combinação que, em sua previsibilidade, chega a ser reconfortante. Ao redor, o barulho típico de uma sorveteria: copos tilintando, meias conversas, risadas ocasionais. Uma tarde completamente comum.
"Taylor?" A voz vem de lado, hesitante, como alguém que não tem certeza da própria memória. Taylor se vira, pisca por um instante, como se precisasse comparar uma foto antiga com o presente.
"Jacó?" Leva um momento, mas o rosto se encaixa. Mais velho, traços mais marcados, menos cabelo, mas inconfundível. Vinte anos é muito tempo, mas não o suficiente para apagar tudo. "Não acredito", diz Jacó, rindo brevemente. "Quase não te reconheci." "Comigo foi a mesma coisa", responde Taylor. "Senta."
Jacó se senta e alterna o olhar entre Taylor e Lucy. "E essa é…?"
"Essa é Lucy", diz Taylor. "Minha filha." Taylor não diz que ela é adotada, simplesmente porque isso é irrelevante. Lucy é sua filha. O "adotiva" de "filha adotiva" é um detalhe jurídico há muito esquecido. Lucy levanta a cabeça e observa Jacó com a franqueza aberta de uma criança de dois anos, que ainda não aprendeu que também se pode ignorar pessoas por educação. "Olá", diz ela por fim. "Olá, Lucy", responde Jacó, sorrindo.
Eles conversam por alguns minutos. Escola, quem se tornou o quê, quem desapareceu. Enquanto isso, Lucy está totalmente concentrada no seu sorvete. Então surge uma pequena pausa.
"Você acha que Lucy teria consentido com o próprio nascimento?", pergunta Jacó.
A frase paira no ar por um instante. Taylor não diz nada. Lucy bate a colher na mesa. "Mais." Taylor lhe dá outra colherada de sorvete, sem tirar os olhos de Jacó.
"Eu não sei", diz ele por fim. Não é uma resposta defensiva, nem evasiva. Apenas uma constatação. "Eu nunca me fiz essa pergunta."
Jacó assente lentamente, como se fosse exatamente o que esperava. "Interessante, não acha?" Taylor se recosta. "Sim", diz. "É."
Ele olha brevemente para Lucy. Ela sorri para ele, sem qualquer dúvida, sem qualquer reserva. "Acho", continua Taylor, "que essa é uma pergunta que cada um deveria fazer a si mesmo."
Ele faz um pequeno gesto indefinido com a mão. "Mas não é uma pergunta que se faz aos outros."