Como Explicar a Adoção para o Filho
Você merece melhor
Esta é a conversa que toda família adotiva, em algum momento, precisará ter, e tanto mais cedo melhor.
É vamos deixar claro, a adoção é algo bom, e vantajoso, para todos, não é algo que precisa ser escondido.
10.1 Quando e como começar
A recomendação dos especialistas em psicologia infantil e em adoção é clara: conte desde sempre, da forma mais simples possível. Comece quando a criança tem um dois anos, com frases simples, nas historias infantis,que conta para seu filho. Inventa as historias, se não encontrar, sempre com um herói, ou heroína, que, como seu filho, não nasceu da barriga de sua mãe, mas de uma estranha.
'Você nasceu na barriga de outra mulher e veio para a nossa família porque você mereceu melhor' , essa frase, dita com carinho e naturalidade quando a criança tem dois ou três anos, não vai gerar a crise que muitos pais temem.
A criança vai ouvir, e seguir brincando. porque ela ainda não tem o contexto emocional e cognitivo para processar todas as suas implicações. O que ela processa é o tom: quando os pais falam sobre isso com calma e amor, a mensagem que a criança recebe é que esse assunto é seguro.
O problema aparece quando os pais deixam para 'o momento certo' e a criança descobre a verdade de outra forma. A descoberta tardia, especialmente quando feita por acidente ou por terceiros, raramente produz apenas curiosidade. Produz a sensação de traição: 'Meus pais me esconderam isso. O que mais eles estão escondendo? O que mais há na minha história que eu não sei?'
Ou seja, o problema nunca é, que é criança é adotado, o problema é, esconder este fato.
10.2 Você merecia melhor
No coração de qualquer conversa honesta sobre adoção há uma pergunta que toda criança adotada, em algum momento, vai fazer, seja com palavras ou sem elas:
Por que minha mãe biológica não ficou comigo?
A pergunta implica rejeição, embora isso, não sempre é a realidade.
Talvez a mãe biológica queria muito o filho, mas foi impedido de criá-lo. O motivo mais óbvio, é a morte da mãe. Pode ser, que ela queria o filho, mas morreu, seja durante, após, ou antes do nascimento. Sim o último é possível, embora muito raro.
Pode ser, também, que a mãe queria o filho, mas os pais ou marido dela obrigaram ela de dar para adoção. Neste caso a pergunta correta seria, porque não me defendeu, e a resposta seria medo da autoridade.
E, tem inúmeros caso, infelizmente também no Brasil, de casos de adoção forçada, onde o poder publico destitui o poder familiar. Com bons motivos, espera-se, mas certamente não pode se acusar a mãe biológica de não querer o filho biológico. Quis ela quis, mas o poder público entendeu, que ela não cuidou da forma adequada.
No Brasil atualmente isso é raro, mas ainda acontece, anos atrás era mais frequente, que crianças de pais pobres, foram adotado por pais ricas contra a vontade dos pais biológicos, como no caso Monte Santo sem o consentimento dos pais. Em Chile milhares de crianças foram adotados a força no regime miliar, tirados dos pais. Na Ucrânia atualmente acontece o mesmo
Ou seja, a pergunta, porque minha mãe não me quis ficar comigo, presume algo, que pode ou não ser verdade.
MAS, independentemente da veracidade da presunção a resposta é a mesma:
VOCÊ MERECIA MELHOR!!!!
Isso é a resposta a pergunta do filho do porque da adoção. VOCÊ MERECIA MELHOR!!!!
Simples assim.
A vida dele, sem a adoção não seria bom suficiente para ele. Ele merecia mais. Merecia Você, mas, é claro, que isso traz consigo, o compromisso de fazer melhor mesmo
Lembre-se, ao adotar um filho, você não tirou um vira lata da rua, que recebendo qualquer resto esta em situação melhor de que antes.
Você tirou de uma criança disputada a chance a uma vida muito boa, de uma família, que a ia amar, ( a próxima na fila).
Tem a obrigação moral de fazer melhor, senão, como justifica, que tirou seu filho da próxima família na fila
Você não deve se comparar com a família biológica, que certamente não deu a vida boa, que devia ao seu filho, mas deve se comparar com a família atrás de você na fila.
Sim, seu filho merece melhor, por isso foi adotado por Você, mas você deve a ele, esta vida melhor. Isso não implica dinheiro, mas bem atenção e dedicação.
Se for adotar, para deixar o filho ser criada por babá, não faça, deixe por próximo da fila.
Esta verdade fundamental , Você merecia melhor do que a situação que tinhas, pode ser explicado de forma simples para crianças a partir das dois anos, em linguagem concreta e afetiva: 'Você nasceu na barriga de outra mulher. Ela não tinha como cuidar de você do jeito que você merecia. (Ou ela morreu, se isso for o caso). Por isso você veio para a nossa família, e nós somos muito sortudos de te ter.' Nessa fase, o que importa é o tom e a repetição, a história da adoção sendo contada como algo normal, amado, parte da identidade familiar.
No improvável caso, que seu filho queira procurar a família adotiva, deixe claro, que vai ajudar ele e acompanha-o.
Se ele quiser, vai conhecer. Como vimos o ECA, no artigo 48, garante ao adotado com 18 anos ou mais o direito de acesso irrestrito ao processo de adoção e às informações sobre sua origem biológica.
Ou seja, seu filho, querendo vai conseguir localizar sua família biológica sem sua ajuda a partir dos 12 anos com ajuda dos redes sócias, fóruns de discussão, e amigos. No mais tardar com 18 vai poder olhar o processo de adoção.
Ou seja, você não ganha nada em dificultar o contato. Por isso, facilita, tão logo seu filho quiser, mas não força se ele não quiser.
10.3 O que não dizer
Algumas frases, ditas com as melhores intenções, produzem efeitos que os pais raramente preveem. Vale nomear as mais comuns:
'Você foi escolhido' , uma frase muito popular em livros sobre adoção dirigidos a crianças. Esta frase tem um problema sutil: sugere que houve uma comparação entre crianças disponíveis e que esta foi selecionada. Além de não ser exatamente como a adoção funciona na maioria dos casos, coloca a criança numa posição de ter que manter um status de 'escolhida' o que pode gerar ansiedade de desempenho. A criança biológica não foi escolhida; simplesmente chegou. O filho adotivo também merece o sentimento de simplesmente pertencer, não de ter sido avaliado e aprovado.
'Sua mãe de verdade', quando dito pelos pais adotivos referindo-se à mãe biológica, produz uma hierarquia que os próprios pais estão se excluindo. O correto é 'mãe biológica' ou 'a mulher que te gerou'. Os pais adotivos são os pais de verdade, tão de verdade quanto qualquer pai pode ser.
'Nunca esqueça o que fizemos por você', seja dito explicitamente ou implicitamente pela forma como a adoção é apresentada como sacrifício ou gesto extraordinário, essa frase cria a dívida perpétua de gratidão que mencionamos no capítulo sobre a narrativa da caridade. Pais adotivos que transformam a adoção em favor que foi prestado à criança estão, sem perceber, colocando sobre ela um peso que nenhum filho deveria carregar. Mas principalmente este entendimento está errado, porque o que os pais adotivos fizeram, é nada mais nada menos, de que tirar do filho adotivo a chance ter ter sido adotado pelo próximo da fila. Isso não é caridade, isso é promessa de uma vida melhor, e é o compromisso, de oferecer, uma vida melhor, de que o próximo da fila teria feito. Isso é importantíssimo. Não resgatou ninguém, tirou de ele a possibilidade de uma vida boa, é tem a obrigação de oferecer uma vida melhor. Seu filho adotivo não lhe deve nada, mas você deve a ele a vida, que teria com o próximo da fila.