Caridade ou Presente?
Por muito tempo a adoção foi considerada um ato generoso. Foi considerada caridade acolher uma criança, que não tinha ninguém. A criança aparecia como beneficiária passiva de uma bondade alheia. Essa é a narrativa da adoção como caridade.
Hoje, o entendimento é, que é exatamente o contrário. A adoção é um presente para quem adota. O filho que chega não é resgatado; é encontrado. O amor que surge dessa história pertence a todos os lados, mas a gratidão mais profunda, muitas vezes, está nos pais. Essa é a narrativa da adoção como presente.
As duas versões eram verdadeiras no seu tempo. Quando a criança ainda era perdida, e a adoção a resgatava, sim, era caridade do adotante, que poderia também se beneficiar, encontrando o amor, embora, isso nem sempre acontecesse.
Durante séculos, e ainda com força considerável no imaginário popular do século XX, a adoção foi apresentada como um ato de misericórdia. As instituições religiosas que cuidavam de crianças abandonadas operavam sob a lógica da caridade cristã: a criança pobre e desamparada era acolhida pelo adulto virtuoso e piedoso. Esse discurso servia a propósitos institucionais e morais: legitimava a existência das instituições, arrecadava doações e conferia status social a quem participava do gesto.
O problema é, que se o adotante considere a adoção um ato de caridade, ele nunca vai ver o adotado como presente, mas bem com uma carga, que tem que carregar.
Ademais, quando uma criança cresce ouvindo que 'foi salva' por seus pais, ela carrega implicitamente a mensagem de que deve gratidão perpétua por sua própria existência na família. Ela não é filha; é beneficiária. Não pertence; foi acolhida. É uma diferença sutil, mas psicologicamente devastadora.
A psicóloga Ana Bock, em trabalhos sobre identidade e adoção, observou que crianças criadas sob a narrativa da caridade tendem a desenvolver dificuldades específicas de autoestima e pertencimento, não porque foram adotadas, mas porque foram repetidamente lembradas de que a adoção foi um favor que lhes foi concedido. A mensagem implícita é: você não merecia estar aqui por direito, mas alguém foi generoso o suficiente para te incluir.13BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: Uma Introdução ao Estudo de Psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. Para um enquadramento específico em adoção e identidade: SCHETTINI FILHO, Luiz. Compreendendo o Filho Adotivo. Recife: Bagaço, 2005.
MAS, esta percepção mudou nas décadas de 1970 e 1980, impulsionada pelo crescimento da psicologia clínica dedicada a famílias adotivas, pelo movimento de direitos civis e pela crescente voz de adultos adotados que passaram a contar suas histórias em público, mas no meu ver principalmente pelo fato prático, que a demanda aumentou e a oferta diminuiu14PALACIOS, Jesus; SÁNCHEZ-SANDOVAL, Yolanda; LEON, Esperanza. Adoptive Family Life and Adjustment of Adopted Children. In: Child Development, v. 76, n. 5, 2005. p. 1.042-1.056. Para dados sobre satisfação parental em famílias adotivas: BRODZINSKY, David M.; SCHECHTER, Marshall D. (orgs.). The Psychology of Adoption. New York: Oxford University Press, 1990.
Toda psicológica é importante e influencia, mas o ponto chave é, que temos agora mais pessoas querendo adotar, de que crianças a ser adotados. Não há mais espaço para caridade, agora é o contrario, é sorte receber uma criança.
Pessoalmente entendo, que o simples fato, que existe a fila da adoção já deixa bem claro, que adoção não é caridade, mas presente.
Se eu não adotar, o próximo na fila vai, e a criança vai ser adotado. Ou seja, não há nenhuma caridade do lado do adotante. Enquanto, se eu não adotar, não vou ter minha filha, ou seja, a adoção é um presente, sem nenhum resquício de caridade por parte do adotante.
Isso vale sempre, se há fila, ou seja, se há mais pessoas querendo adotar, de que crianças a serem adotados.
No passado, quando de fato ainda havia milhares de órfãos, e poucos pessoas querendo adotar, a adoção era uma caridade, mas hoje não é mais.
Na pratica isso significa, a criança adotada é um presente pelos pais, e não deve absolutamente nada a eles, os pais de outro lado, devem para ela a melhor vida possível, já que tiraram dela a chance de ficar com a próxima família da fila.
Então os pais adotivos não tem o direito de achar, que resgataram uma criança pobre de viver da rua, e que qualquer tralha é mais do que ela teria, se não tivessem adotado.
Não, os pais tem que saber, que se não tivessem adotado, ela estaria com a próxima família da fila, vivendo uma vida confortável cheia de amor.
Então é isso, o mínimo que os pais adotivos tem que dar para sua filha, ou filho.
Se algum faz alguém abrir mão de algo, tem que oferecer algo melhor. É uma obrigação moral. A criança abriu mão da próxima família na lista, que certamente teria oferecido uma vida boa, já que foi aprovada pelo estudo psicossocial, portanto, os adotantes tem que oferecer, no mínimo, o mesmo.
Ou seja, os pais adotivos devem ao adotado, mas o adotado não deve absolutamente nada aos pais adotivos, nem gratidão, nem obediência, nem amor.
Os pais podem e devem conquistar tudo isso durante a educação, não é devido, mas pode ser ganho por merecimento.
Pensar diferente é simplesmente errado, é resquício de um tempo passado com situações totalmente diferentes