Enfrentando o Preconceito
O que a família, a escola e a sociedade ainda precisam aprender
Adotar deveria ser simples: uma criança precisa de família, adultos querem ser pais, um juiz homologa, a vida começa. Mas a vida real é mais complicada do que qualquer procedimento judicial, e o preconceito disfarçado de preocupação aparece a partir da família, colegas, vizinhos, e na escola, tanto dos pais como das colegas. O preconceito é dirigido tanto contra os pais adotivos, como contra a criança adotiva.
8.1 O preconceito contra os pais adotivos
'Você não tem filhos de verdade.' Esta frase, ignorância pura alias, é mais frequente de que se possa esperar.. O que ela revela é a persistência de uma hierarquia biológica na concepção popular de família: a família 'de verdade' é aquela formada pelo sangue, e qualquer outro tipo de vínculo é uma aproximação, uma versão reduzida do original.
Essa hierarquia tem raízes profundas. O direito durante séculos a reforçou. o Código Civil de 1916, como vimos, colocava o filho adotivo em posição de inferioridade em relação aos filhos biológicos em matéria de herança. A cultura popular a repete em histórias, ditados e na suposição de que o amor biológico é instintivo e, portanto, superior ao amor construído. E não vamos esquecer os inúmeros contos infantis, que retratam a madrasta (adoção unilateral) como vilão.
A Constituição Federal de 1988 foi categórica ao proibir qualquer distinção entre filhos: o artigo 227, §6º estabelece que 'os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.' O Código Civil de 2002 repetiu esse princípio no artigo 1.596. Juridicamente, não há filho de primeira e segunda categoria. Socialmente, a distinção persiste.
Pais adotivos frequentemente relatam pressão familiar para 'tentar um filho biológico', como se a adoção fosse uma escolha de segundo plano, uma consolação para quem não conseguiu o que realmente queria. Essa pressão é especialmente chato quando vem de parentes próximos, que demoram a 'aceitar' o neto ou sobrinho adotado como membro pleno da família. O problema aqui, nem é tanto a pressão, mas ter que aguentar tamanha ignorância.
Adoção não é segunda opção, pode ser para alguns, mas para a pessoa consciente a adoção é a primeira opção. Vou apontar as vantagens no próximo capítulo.
8.2 O preconceito contra a criança adotada
A criança adotada enfrenta uma forma específica de exposição: desde cedo, ela sabe que sua história é diferente da maioria. Isso por si, não é um problema; diferença, quando integrada com segurança, pode ser fonte de identidade forte. O problema aparece quando a diferença é tratada como inferioridade.
O preconceito mais comum que crianças adotadas enfrentam vem embrulhado em perguntas aparentemente inocentes: 'Por que sua mãe não quis você?' 'Você vai procurar seus pais de verdade?' 'Você não tem medo de ser devolvido?' Cada uma dessas perguntas carrega uma carga devastadora para uma criança que ainda está construindo sua identidade. A primeira sugere que ela foi rejeitada por ser insuficiente. A segunda nega a realidade dos pais adotivos como 'pais de verdade'. A terceira insinua que o vínculo familiar pode ser desfeito por capricho.
Pais adotivos bem preparados antecipam essas perguntas e trabalham com os filhos formas de respondê-las, não para negar a história da adoção, mas para enquadrá-la de forma que fortaleça, não fragilize, a identidade da criança. Voltaremos a isso nos capítulos seguintes, com mais detalhe sobre como ter essas conversas.